Os deslimites da razão Entre o real e a imaginação A fugacidade da cópia A aura da criação Permita-se inventar Toda criação é cópia (e vice-versa?) Permita-se misturar Nos momentos de crise que acontecem as maiores criações. Quando não se tem nada é que se pode ter tudo. É na escuridão que um pequeno feixe de luz pode reinar em radiância. Permita-se ousar.
Minha busca incansável Minha sede O horizonte que por mais que caminhe, nunca chego.
Eu corro mas não saio do lugar Estendo os braços mas não consigo alcançar Abro bem os olhos mas a luz não está lá.
Onde estará meu alento Meu remédio Meu contento?
Temos uma necessidade urgente de paz Quanto mais se corre atrás Mais ela se esvai Como areia escorregante entre os dedos Como água cambaleante sobre os rochedos Como o vento que dança e escapa por caminhos estreitos
Nossa! Eu cheguei tão perto Mas não pude passar...
Agora entendo: Essa busca nunca terá fim O descanso só virá quando eu partir.
E quem ficar se canse menos
Não corra Caminhe e admire a beleza da paisagem Segure nas mãos de quem caminha ao seu lado E contigo divide o ar e o pão Desfrute das coisas simples da vida sem dar vazão àquela angustiante sensação de que se está perdendo tempo e lembre-se: nesta vida somos meros retirantes.
Desfaça-se de todas as máscaras e aceite a condição de desajuste Você não precisa ser como os outros: Eu também não. Então...
Descanse
Sinta a brisa acariciando o rosto E os desafetos? “Releve. Seja leve. A vida é breve...”
- Oi, tudo bem? - Você quer ouvir de verdade ou é apenas mais uma pergunta retórica dessas que fadigam os dias e perpetuam as máscaras? - Moça, pode falar... Tenho ouvidos para ouvir e alma profunda pra escutar... Vou de novo indagar: Menina, como você está, por dentro, por detrás desse olhar cansado que a tristeza não consegue ocultar? - Moço, sei não... Ora bem, ora mal Sempre em uma gangorra emocional... Ora em cima, ora embaixo Up Down... Um movimento constante Um sobe e desce contínuo Não dá tempo nem de admirar o céu a terra me chama, sedenta de vida, sedenta de lama. Mas confesso que gosto dos ares. Sou naturalmente assim: muito ar, pouca terra Será que um dia alguém me conserta? Meus pés têm dificuldade de tocar o chão Rebeldes, às vezes parecem ter vontade própria, sei não... Eles gostam de voar... Sossega pé, Sossega alma Aquieta-te, coração Deixa de sonhar que tudo não passa de ilusão Sobe e desce Desce e sobe Esse é o meu movimento de vida Ele me ensina que tudo passa o vai e vem da história o ciclo que sempre gira já aprendi a esperar Calma, garota... a agonia no dia seguinte vai passar o sol se tornará nuvem, que chuva, molha e seca no dia seguinte o sol sempre volta a brillhar... Espera... E assim vou em meu eterno gangorrear
Pode ser que um dia eu largue a gangorra pra lá Encare meu outro e lhe diga: Vamos passear?
-Queria inventar uma palavra que não existe, irmão. - Que palavra, doida?! - Na verdade um conceito. Ih, não me olha com essa cara que não é nerdice não. Sabe aquele sentimento de deslocamento, não pertencimento? Quando a gente não consegue encontrar um lugar no mundo no qual se encaixe? -Ah, sei, também sinto isso. - Existe uma palavra que defina esse nosso não-lugar no mundo? - Em português, acho que não. - Bora inventar? - Vai adiantar nada! Todo mundo vai continuar sentindo e ninguém vai usar a palavra que você inventar. - É... Tem razão. Acho que nem se eu tivesse terminado o doutorado. Tem que ter autoridade pra inventar palavra né? - Tem. Tem que ter isso e uma cabeça meio doida que nem a nossa. - Ah...Isso a gente tem. - Mas esquece essa parada. Não somos peças pra encaixar. - É... Verdade... E aqueles que acham que encaixam, ou não se deram conta de nossa peculiar inadequação ou tão mentindo pra si mesmos. - É...Muitos mentem, verdade. Digo, mentira. - Acho que por isso nunca gostei de quebra-cabeças... Sou uma desajustada, reconheço. - Somos. Você não está sozinha, embora pareça que sim. - Isso! Há um numeroso grupo dos que divergem , né não? Aqueles que não se enquadram. Que, por mais que tentem, não cabem no quadrado. Os que pensam fora da caixa, os desencaixados... Achava que isso era defeito, mas agora tô achando tão bonito... - Irmã, vai dormir... - Vou. É mesmo uma das coisas que mais gosto de fazer. Boa noite.
O que é de fato real? Sorrisos-disfarce Amor virtual Afetos efêmeros Amores fortuitos, e-ternos Nós em desenlace Me segure enquanto abrace Mas não há braços...
Tudo é líquido Gota: escorre, seca Em meio à multidão Fica a solidão (do nascimento e da morte)
Já parou pra pensar que você (e eu) (e nós) Podemos ser apenas personagens de uma obra ficcional? Você é real?...
Sagrada é toda forma de amor
Macias em pétalas de bem-querer
Um arco-íris furta-cor
Colorindo as estações
Um fio fino de memória
que costura nossa história
Somos irmãos
Perto ou distantes
Nascemos da mesma mãe
Vamos nos dar as mãos
Construir pontes
e romper os abismos.
"Se as coisas são inatingíveis... ora! Não é motivo para não querê-las... Que tristes os caminhos, se não fora A presença distante das estrelas!" Caminho em direção a elas que, faceiras, se distanciam mais Me contentarei em observá-las e esperar as boas-novas que o vento me traz Quero o inalcançável o ar que meus pulmões não alcançam o cheiro dos perfumes inteiros asas pra voar depois da estiagem ser borboleta e repousar em flor Quero de tudo o maior amor Aquele irrealizável Cujos sonhos não se desfazem...
Mãe, bem que poderiam inventar uma pílula que acabasse com dor de amor, né não?
Porque acho que quase toda dor que não vem do corpo, mas da alma e coração, são
tudo dor de amor.
Ah, mãe, não fala
que sou muito nova pra entender dessas coisas... Quem te disse que não sei o
que é o amor? Você acha que amor só nasce no coração de gente adulta? Pois eu
discordo. Acho que toda pessoa já nasce com o amor estampado na alma, tipo uma
tatuagem que não sai por nada. Só que tem gente que esconde, né?
Não, mãe, eu não tô
pensando em fazer uma tatuagem não... Pode ficar tranquila. É claro que eu não
faria uma coisa dessas escondido de você... Mas sabe que acho que são tantas
marcas que as pessoas carregam, que às vezes elas ficam cansadas com o tanto de
peso que carregam na alma?
Ah, mãe, eu falo
tanto de alma porque eu acredito que ela exista sim, e que é imortal. Não, não
tem nada a ver com religião... Acho sim que cada pessoa é na verdade uma alma e
que tem gente com alma colorida, leve, outras com alma cinza e pesada. A minha?
Ah, acho que parece um arco-íris, mas às vezes me pesa um bocado...
Mãe, não faz essa
cara... Já te disse que às vezes gostaria de ter nascido pedra. Sim, pedra,
pois pedra simplesmente existe e não sente. Acho que eu sinto demais as
coisas... E isso dói um pouco, pesa...
Não, não quero ir
mais na psicóloga não, mãe! Não me obriga... Gosto de gente que conversa, como
se fosse um pingue-pongue. Esse lance de escancarar o coração e depois nem
receber uma palavra em troca me deixa com a sensação de ter sido ludibriada...
É, aprendi essa palavra na aula de Português. Você sabe que é a minha matéria
preferida... Gosto de descobrir novas palavras, porque elas me ajudam a
traduzir algumas coisas que sinto. Alguns sentimentos ficam presos porque não
têm palavra que consiga explicar. Acho que a gente tinha que ter a liberdade de
inventar palavras. Por exemplo, como se dá nome àquela sensação que a gente tem
de já ter vivido algo? Ah, tem?! Não sabia... Ah, mãe, eu não sei francês...
Não sei ainda, pois quero aprender todas as línguas do mundo, para não me
faltarem mais palavras para explicar os sentimentos que pesam no peito...
Ah, mãe, calma, já tô
indo... a louça bem que podia esperar... Não sei por que as pessoas têm essa
urgência de lavar a louça logo depois que comem. Isso tinha que fazer mal.
Alguém bem que podia provar que lavar louça depois da refeição fazia mal, igual
a tomar banho... É, vovó falava isso, esqueceu? Não, mãe, não tô te enrolando
não. É que bateu uma vontade tão grande de escrever um poema... Sobre o quê? Sobre
beija-flor. Por quê? Ah, foi por causa de uma música danada de bonita que eu
tava ouvindo. Você não deve conhecer não... Não! Não vou cantar, claro que não!
Quinze minutos?!
Poxa, mãe, quinze minutos não dá para pensar nem em um título... A louça pode
esperar meia hora...
Mãe, o que são “segredos
de liquidificador”? Tentei imaginar um sentido para isso, mas não consigo...
Ah, já sabe qual é a música que eu tava ouvindo? Assim ficou fácil, né? Você
também adora essa música? Eu sei por quê... Porque era uma das músicas que
papai mais ouvia...
Ah, mãe, não faz
essa cara de tristeza que minha alma logo pesa... Tá bem, eu prometi que não ia
mais falar nele, mas é que é muito difícil pra mim... Recordações são como ladrão,
chegam assim de repente, sem avisar... Tá bem, eu prometo que vou tentar pensar
mas não falar... Desculpa... É que você disse para a dinda que tinha perdoado...
Aí eu pensei que... Tá bem, não falo mais nisso...
Vou cantar...
“Pra que mentir Fingir que perdoou Tentar ficar amigos sem rancor...”
Não, mãe, tô brincando! Não me belisca
que dói...
Mãe,
a última vez que você me beliscou desse jeito foi aquele dia que o moço da
padaria olhou tão fundo no teu olhar que eu não resisti e dei escrito num papel
o número do teu telefone pra ele... Não, mãe, eu não achei ele feio não... É
que eu tenho uma mania de olhar pra dentro das pessoas e achei que ele tinha
algo bem bonito por dentro.
Para
de dizer que sou maluca, que me ofendo. Mas no fundo sei que eu sou diferente das
pessoas desse mundo mesmo... Será que um dia vou encontrar alguém igual a mim
para ser meu par? Acho que a gente acaba se procurando em outra pessoa, né?
Acho que eu quero casar comigo mesma...
Sei
que sou nova pra pensar em casamento, mãe. E nem acho que esse negócio de par
seja verdade. Eu to brincando. Acho que a gente não nasceu metade, a gente já
nasceu inteiro... É, e quando a pessoa fica falando que só vai ser feliz quando
achar a outra metade da laranja, é bem capaz que nunca consiga um suco que
preste... suco azedo, isso sim...
Mãe,
queria que você soubesse uma coisa: essa
noite eu te ouvi chorando... Não, não me diga que estava sonhando, pois sei
que tua alma também pesa às vezes, mas você tenta disfarçar, tipo aquela
tatuagem que a pessoa se arrepende de ter feito e depois tenta esconder... Não
esconde não, mãe, chora, sente, deixa essa dor fluir...
“Você sonhava acordada / Um jeito
de não sentir dor/
Toma
esse poema que eu fiz... É pra você. E eu vou lavar essa louça agora, que ela
já tá virando um fantasma a me assombrar... Acabou o detergente?!